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Portugal Pés-a-Pés

Caminhámos com a alma no olhar, numa ânsia de tudo absorver, de arrecadar cada imagem deste nosso belo país. E desta vez metemos pés a um longo caminho.

Portugal Pés-a-Pés

Caminhámos com a alma no olhar, numa ânsia de tudo absorver, de arrecadar cada imagem deste nosso belo país. E desta vez metemos pés a um longo caminho.

Tazém a Noura - 3ª Etapa

 

 

Voltámos ao nosso caminho. À procura de Portugal pelos atalhos talhados ao longo de séculos no profundo desenho de uma natureza pródiga e caprichosa, magnânima na sua vontade de dar. Trás-os -Montes existe suspensa da magia da montanha e da hospitalidade da sua gente e oferece-se aos olhares de quem passa em vislumbres de rocha crua e pinceladas de seiva que se derramam por hortas e velhos soutos.

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  Tazém ficou já para trás e cruzámos a ribeira de Friande. Fustigados pela neve que nos pica a pele, ficamos a pensar se é o regato  que corre para os campos ou se são os campos que nele se derramam. Cabanas fica já ali na curva da estrada, guardando ciosamente o moinho que sonha com o passado e a sua pequena igreja. E as cancelas que se sucedem no nosso caminhar mascaram-se a cada olhar de uma nova identidade. Até aqui se descobre a fértil imaginação do homem e a sua capacidade de reutilizar, fazendo de um estrado de cama ou das aduelas de um barril uma nova porta para o quintal. Curros aninhou-se no declive da montanha, numa parceria perfeita: “Dás-me o teu calor e eu alegro-te com o riso da minha gente”. E a montanha diz que sim, afaga a aldeia com o hálito quente da rocha e deixa que pedaços de si, milhares de pedacinhos de xisto, lhe sejam roubados e preciosamente empilhados em paredes de casas, em muros de quintais, em currais plenos de vida, até que a impiedosa mão do tempo venha, de mansinho, hoje, amanhã e depois, deitar por terra os muros de cansaço que o homem ergueu.

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  Os castanheiros vão-se já deixando ficar para trás e os socalcos do monte ondulam agora em brisas brancas de flores de amendoeira. Castanhas e amêndoas. Secas como a alma do vento .Ricas como a alma da terra. Simples. Essência transmontana. E assim passámos Jou, a senhora das aldeias que a rodeiam, quase aspirando a pequena vila. Entrámos no café Pica Galo para o imprescindível café e surpreendemo-nos com a lotação do espaço. Afinal de contas são perto de seiscentos habitantes a viverem aqui sob a protecção de Santa Isabel!

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  Deixámos a R314 e vamos no caminho que segue para Aboleira. Por detrás de novas e originais cancelas filas de oliveiras alinham-se sobre tapetes de camomila. E na encosta sonolenta ao sol dezenas de cabras e ovelhas procuram rebentos tenros entre o dourado do xisto, sob o olhar da pastora que tem o seu facebook registado aqui na dureza do solo, no olhar que se esconde da objectiva da máquina fotográfica.

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  Toubres ficou para trás com as suas duas capelas e a Casa Guerra, da qual se diz trazer historia já desde o século XVII, e caminhamos para Valongo. Chama-se de Milhais desde o tempo da primeira guerra, quando um dos seus nativos, de nome Milhais, se tornou herói. Mas nem o seu feito histórico impediu que a sua casa se fosse curvando sob o peso do tempo e dos tempos, em soluços de desilusão…Despedimo-nos das suas varandas de madeira e depois de atravessarmos Ribeirinha e Paredes encontramos o IP4. Quais formigas sob a sua imensidão aproximamo-nos de Noura. E é agora a simetria das vinhas, o dançar do sol por entre os bardos e a redondeza sugestiva dos montes que nos recebem numa mensagem de boas vindas a terras de bom vinho. E ao longe, coroada de branco e azul, Murça acomoda-se na paisagem, à espera da noite. É hora de recolher. Enquanto Trás-os-Montes cerra as janelas e as lareiras aquecem o olhar.

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